Planejaram assassinar jornalista em Mato Grosso

O que se trava em Mato Grosso, meio na surdina, é uma luta pela civilidade, uma luta para preservar nossa humanidade. O pretenso ataque da “polícia paralela” do governador Mauro Mendes contra 18 (dezoito) jornalistas, nestes últimos tempos, expôs nosso Estado perante o Brasil e o mundo. A hora é de provar que Mato Grosso não é uma selva e que uma visão selvagem das relações sociais não haverá de prevalecer nesta vasta região do Brasil, terra de um Agronegócio poderoso.

O embate é duro, severo, estressante mas ainda se dá dentro de uma bolha, não é um tema que envolva o conjunto da sociedade mas tenho para mim que defender e preservar a vida do jornalista Alexandre Aprá é vital para garantir a saúde democrática da sociedade mato-grossense. Dezoito (18) jornalistas foram atacados mas foi ao Alexandre Aprá que, pelo que consta, teriam planejado assassinar.

A relação dos jornalistas ameaçados, de acordo com levantamento do Sindjor MT, é a seguinte:

1 – Alexandre Aprá.
2 – Pablo Rodrigo.
3 – Victor Nunes.
4 – João Dorileo Leal.
5 – Maria Luiza Nogueira.
6 – Janice Ortis Ramos.
7 – Edivaldo de Sá Teixeira.
8 – Rodrigo Gomes Vieira.
9 – Edina Ribeiro de Araújo.
10 – João Adevilson de Souza.
11 – Marcos Fabiano Peres Sales.
12 – Ari Dorneles Pereira.
13 – Enock Cavalcanti.
14 – Haroldo de Arruda Júnior.
15 – Ulisses Lálio Pereira Barros
16 – Daniel Pettengill.
17 – Hevandro Peres Soares.
18 – Marco Polo Pinheiro.

O Sindicato dos Jornalistas mato-grossense, comandado pelo jornalista Itamar Perenha, desponta nesta movimentação pela garantia da Liberdade de Imprensa e pela proteção ao trabalho dos jornalistas. Tem demonstrado coragem, resiliência. Será importante que outras estruturas da sociedade se movimentem e não permitam uma calcificação dos arreganhos autoritários que teriam partido do Palácio Paiaguás. Sim, é o Estado Democrático de Direito que está em causa.

Eis o resumo da ópera: Alexandre Aprá, que comanda o saite www.issoenoticia.com.br  é um repórter investigativo diligente, esforçado, ativo como existem poucos em Mato Grosso. Conta a história que, ao identificar irregularidades em um leilão de apartamento em área de luxo da capital, usado para saldar dívidas trabalhistas, leilão promovido pela Justiça do Trabalho, Aprá teria identificado uma ardilosa maracutaia cujo objetivo final era entregar a posse do apartamento a uma juíza que era uma das principais lideranças da Justiça do Trabalho em Cuiabá. Corria o ano de 2015. Houve então uma arrematação que teria sido de mentirinha: o empresário, e então prefeito, Mauro Mendes comprou o apartamento por um preço baratinho e depois teria repassado o imóvel para a tal juíza que vinha a ser esposa de um dos diletos sócios de Mauro Mendes. Depois que Alexandre Aprá revelou os detalhes desta trama em seu saite, material que acabou reproduzido por toda a imprensa mato-grossense, a Justiça agiu. A juiza que ficara com o apê e um outro juiz envolvido na negociata acabaram sendo aposentados compulsoriamente mas o prefeito Mauro restou impune, habilmente defendido por seus advogados. Ora, a punição dos colegas da Justiça do Trabalho aos dois magistrados comprovou o acerto da revelação jornalística feita por Alexandre Aprá.

Claro que a vida profissional de Alexandre Aprá não esteve focada, o tempo inteiro, em Mauro Mendes – mas este confronto se transformou em importante dado para a reflexão de todos nós sobre as tensas relações entre governo e imprensa, aqui neste Mato Grosso que é um Estado que compõe a enorme periferia do Brasil, onde tudo que acontece não teria tanta importância assim, já que o foco dos acontecimentos está sempre voltando pro Rio, São Paulo e Brasília, grandes centros, grandes negociatas. Esse caso deve, em paralelo, provocar reflexão sobre os malefícios da forte concentração do controle da mídia no Brasil.

O que não impede, claro, que as tramas continuem a ser operadas em Mato Grosso. Em 2021, para espanto de muitos, surge a notícia, que ganhou destaque até no programa Domingo Espetacular, da Rede Record de Televisão, de que um detetive importado do Mato Grosso do Sul, fora contratado para assassinar o jornalista Alexandre Aprá, que mantinha a rotina do seu jornalismo investigativo. Sim, o plano inicial, segundo a reportagem da TV Record, era matar o jornalista Aprá, mas acabou refluindo para uma tentativa de assassinato de reputação. O detetive se empenharia então em provar que Aprá era traficante de drogas e um homossexual pedófilo. Um parceiro do detetive criminoso, todavia, acabou vazando o plano criminoso. Aprá teve até que viajar para fora de Mato Grosso durante um período tal o impacto das revelações, e a anunciada tentativa de matar o jornalista cuiabano acabou indo parar na TV Record, repercutindo por toda a imprensa brasileira.

O crime frustrado teve denúncia encaminhada à Policia Federal, à Policia Civil de Mato Grosso, ao Ministério Público estadual e federal. Mas até hoje os possíveis mandantes dessa anunciada tentativa de matar Alexandre Aprá não foram perfeitamente identificados, apesar do detetive contratado para o crime, ele mesmo, em cenas gravadas, apontar o dedo para o governador Mauro Mendes e para um dos seus parceiros, o empresário de publicidade Ziad Fares. Uma denúncia desse tipo deveria merecer investigação prioritária, mas não foi o que ocorreu. As dúvidas persistem no ar, e crescentes, dado o embaraço das investigações.

Investigações policiais começaram, foram interrompidas e precisou que o procurador Marcelo Ferra, do MPE-MT, botasse o pé na porta para que elas fossem retomadas em 2023. Mas investigações envolvendo a alta cúpula do poder em Mato Grosso parecem feitas para não avançar. De fato, não avançaram. De fato, esperam por uma efetiva conclusão.

O que parece ter avançado foi a ousadia do governador Mauro Mendes que, em meio à sua fúria contra um grupo cada vez maior de jornalistas mato-grossenses, na virada do ano de 2023 para 2024, usando a Policia Judiciária Civil como ponto de apoio, parece ter bolado mais um plano de ataque contra Aprá. Tanto que, em 6 de fevereiro de 2024, a residência de Apra e de mais dois jornalistas, foi invadida em Cuiabá por agentes da DRCI – Delegacia de Repressão a Crimes Informáticos, que recolheram celulares e computadores dos jornalistas. O titular da DRCI, delegado Rui Peral pretendia mesmo era prender Alexandre Apra. Fez o pedido de prisão mas a promotora Lais Glauce Santos e o juiz João Bosco Soares acolheram todos os pedidos do delegado, menos esse.

Com apoio do Sindjor MT – Sindicato dos Jornalistas, Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas, Abraji – Associação Brasileira dos Jornalistas Investigativos, Repórteres Sem Fronteiras, Instituto Vladimir Herzog e outras entidades que compõem a Rede de Proteção aos Jornalistas e Comunicadores, Alexandre Aprá, sem esmorecer, conseguiu provar que a invasão de sua residência, a apreensão de celulares e computadores dele e de outros dois jornalistas se constituiu em mais uma torpeza que teria sido praticada por influencia de Mauro Mendes e sua trupe. Tanto que o inquérito em questão acabou sendo anulado por decisão liminar da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, no dia 6 de março, em resposta a uma Reclamação Constitucional protocolada pelos jornalistas. Um mês depois da invasão das residências.

Fim de caso? Não, claro que não. Alexandre Aprá continua se mobilizando, usando de todos os recursos colocados à sua disposição, para dar um basta nesses pretensos ataques contra ele. Ele tem denunciado uma verdadeira “policia paralela” que o governador teria montado em Mato Grosso para promover o assédio contra jornalistas que investiguem ou simplesmente critiquem a gestão do político do União Brasil. O caso foi levado ao conhecimento do Observatório da Violência contra Jornalistas, do Ministério da Justiça, sob comando do Secretário Nacional de Justiça, advogado Jean Uema. Aprá também tem apontado a estranha e inaceitável omissão do Ministério Público Estadual de MT e de todos seus agentes diante de todo este charivari. O fiscal da Lei, em Mato Grosso, não estaria fiscalizando o cumprimento de Lei nenhuma.

É uma peleja difícil porque enfrentar o poder estatal nunca é fácil. “Só quem provou sabe quanto dói”. O sucesso de Alexandre Aprá, imagino eu, depende da solidariedade de um número maior de pessoas à sua causa. Seu grito segue preso numa bolha, e a maioria da população mato-grossense certamente que nem sabe das atribulações que marcam o cotidiano deste jornalista de 36 anos, cuja vida se transformou numa rotina permanente de tensão.

Eu digo que preservar a vida e a atuação profissional do jornalista Alexandre Aprá é um instigante desafio que se vive hoje em Mato Grosso, Brasil. Cada apoio que essa luta receber será importante, vital. Não serão apenas artigos como esse que irão mudar esta realidade, mas artigos como esse são gritos que se somam ao grito do jornalista ameaçado.

É preciso que Alexandre Aprá viva para que a democracia continue a respirar em Mato Grosso.

 

Por

Enock Cavalcanti, 70, jornalista, é responsável pela edição do blogue PAGINA DO E/ PAGINA DO ENOCK, editado a partir de Cuiabá, MT, desde o ano de 2009.

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